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Cristovam BuarqueQuando se pergunta como se explica a vergonha educacional numa das grandes potências econômicas do mundo, a resposta está na preferência brasileira pelo topo da sociedade, não pela base. Cuidamos mais das universidades do que do ensino de base.

Um exemplo é que a quase totalidade dos que defendem cotas raciais para ingresso na universidade não lutam pela abolição do analfabetismo, nem pelo aumento no número dos jovens negros que terminam o Ensino Médio. Outro exemplo é o Brasil se preocupar com ter apenas 13% dos jovens de 18 a 24 anos – a chamada idade universitária – cursando a universidade, sem considerar que pouco mais de um terço dos alunos que se matriculam na primeira série do Ensino Fundamental conseguem concluir o Ensino Médio. Hoje, o número de vagas para ingresso na universidade é de 2,8 milhões, maior do que o número dos que terminam o Ensino Médio, 1,8 milhão. Mas as mobilizações são pelo aumento de vagas na universidade, e não pela conclusão do Ensino Médio.

O resultado é uma universidade sem base: os alunos entram sem condições de seguir plenamente o curso que escolheram e sem a base complementar ao conhecimento específico de seu curso. As universidades sofrem um dilema: ficar com vagas ociosas ou ter alunos incapazes de seguir plenamente o curso. O Ensino Médio sem qualidade puxa a qualidade do Ensino Superior para baixo.

A grande fraude do ENEM – que serviria como vestibular – não foi o vazamento das provas, está nos resultados do ENEM que avalia a qualidade do Ensino Médio no Brasil. Termos notas tão baixas no ENEM é uma fraude maior do que o roubo das provas do exame. E é importante lembrar que essas notas medem somente o desempenho dos alunos que concluem o Ensino Médio, sem considerar os que ficam para trás. A fraude das fraudes é termos quase dois terços das nossas crianças e jovens sem conseguir completar o Ensino Médio. A maior fraude não está na ilegalidade da quebra do sigilo das provas, mas no péssimo desempenho dos que passam pelo ENEM. E entre os que concluíram, poucos receberam Educação Básica com qualidade. Quase universalizamos as matrículas nas primeiras séries do Ensino Fundamental, mas desprezamos a presença, a permanência e o aprendizado até o final do Ensino Médio.

Mas esta grande fraude – a exclusão dos jovens e as baixas notas do ENEM – não importava para a opinião pública, até que ela ameaçou a lisura da seleção para entrar na universidade. Enquanto o ENEM não estava vinculado ao vestibular, a grande fraude era invisível.

Se a solução para a fraude menor está em melhorar a preparação das provas, incluindo o sigilo; a fraude maior só será superada com uma revolução na Educação de Base. Entre as ações necessárias, estão a criação de uma Carreira Nacional do Magistério e a execução de um Programa Federal que assegure horário integral a todas as escolas, com professores bem formados, dedicados, bem remunerados e com acesso aos mais modernos equipamentos. Os professores seriam selecionados em concursos federais e teriam salários pagos pelo Governo Federal. A qualificação das edificações e dos equipamentos seria financiada e fiscalizada com recursos federais.

Felizmente, a sociedade começa a despertar: o movimento “Todos pela Educação” reúne empresários; o “Pacto pela Educação”, promovido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) reúne cientistas; o “Movimento Nacional pela Educação” reúne os maçons; o “Movimento Educacionista” reúne principalmente os jovens. São movimentos de um Movimento.

Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

 
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