|
Seu Anastácio precisa abastecer a despensa e está se preparando para sair. Vai à caça. A frigideira de ferro fundido estava na brasa. Ele coloca um pedaço de chumbo para derreter. O chumbo se desmancha como manteiga. Derrete e se reparte em centenas de bolinhas brilhantes. Elas correm no fundo da frigideira de um lado para outro. São micro esferas de tamanhos variados. Este é o momento: Anastácio pega a frigideira com auxilio de um pano para não se queimar e despeja o conteúdo dela num balde onde já havia água por metade. Ouve-se o som característico das esferas esfriando: “Pfffffffff”. E a frigideira volta para o braseiro. Vai receber outro pedaço de chumbo. Quando já não tinha mais chumbo para derreter, o que antes era o nível da água é agora de esferas e a água transborda no balde. Agora ainda precisava preparar a pólvora. Onde foi mesmo que escondeu o pacote? Tem crianças em casa e por isso sempre deixa este tipo de material bem escondido. Agora só falta lembrar onde foi mesmo que o colocou. É assim é que Seu Anastácio se prepara para ir à caça. Ele tem um bando de filhos. E como se não bastassem tantas bocas, a sua mulher, a Dona Joaninha, está pança outra vez. É claro que está. Nunca nega fogo. De tempos em tempos uma barrigada. Se bem que a caçula está com 3 anos. Pensavam que tinha fechado a fábrica. E agora ela aparece de novo com outra barriga. Mas Deus é bom e tem que ser louvado: Tem mandioca no roçado. E fruta a revelia no pomar. Tem aipim, batatas e verduras. As cabras dão leite bastante. Mas mesmo com tanta abastança ainda teria que providenciar carne. As crianças estão crescendo e precisam de sustância. Estão enjoando de galinha e porco, mas hoje terão uma carne vermelha pra variar. “-Amanhã é domingo, não tem fiscalização. Vou bem cedo no mato e trago carne pros piás.”. Chega o domingo, e com ele uma visita inesperada: Uma irmã de sua mulher veio com a filha. Iriam passar o dia na certa. Isso se não vieram para pousar. É mais um motivo para trazer carne. Seu Anastácio apressou-se e saiu pelos fundos da chácara para se embrenhar nos matos. As cartucheiras desenhavam um “X” no peito, cada uma apoiada num ombro. A na guaiaca pendiam uma faca cortadeira como ela só, e pedaços de cordas para qualquer emergência. Salete é a mais velha, tem quatorze anos, depois vem Tânia e Juarez, com treze e doze anos. Na seqüência da escadinha vem os gêmeos Otávio e Francisco com nove anos. E a “rapa-do-tacho” é uma meninota de três anos a quem batizaram com o nome de “Marla” em homenagem a avó. Seis filhos lindos, três meninos e três meninas. E mais a chinoca xirúa que lhe tem dado tantas alegrias nestes anos todos. “ - É muita boca para encher. E como comem! “. A mulher e a irmã ficaram na sala, tagarelando. Notícias da cidade. As fofocas vêm à tona. É assim que ficam sabendo dos acontecimentos. Enquanto as irmãs se atualizam nos fatos, as crianças se divertem no pátio. Os gêmeos não conseguem atar a borracha na forquilha. Pretendem fazer uma funda, mas não tem forças para fazer o nó direito. “- Quem tem força é a Salete.”- Um deles sugere. “ – Mas ela está com a prima lá nas goiabeiras.” Não eram nem dez horas ainda quando se ouviu o estampido. O Som da espingarda se destaca no silêncio da mata. E o eco chega até o povo da casa. - Ouviu? – disse a mulher visitante - Ouvi. Vamos ter assado para o almoço. Dito e feito. Lá pelas onze horas vinha o Seu Anastácio com um bugio nos ombros. Um bugio enorme. Seu Anastácio não gosta de matar os bugios. Mas foi o que estava mais a jeito e atirou nele assim mesmo. Assim que chega, coloca o animal morto em cima da mesa do galpão e chama a mulher. - Muié! Ô Muié!. As mulheres já estavam chegando. A esposa e a cunhada. Trouxeram bacias e baldes E as facas de carnear. Iriam corear o animal e preparar o assado para o almoço na mesma hora. Seu Anastácio estava entre orgulhoso e triste. Orgulhoso por que acertara o animal logo no primeiro tiro. Coisa rara de acontecer na sua idade. Gastou um cartucho só. Mas estava triste por que não gosta de sacrificar os bugios. Preferia que fosse uma anta ou paca. Até mesmo um cervo. Mas tinha que aparecer logo um bugio. - Esconde a cabeça. – Ordenou ele às mulheres. - Que é que tem? Homem. É só uma cabeça. - Mas parece cabeça de gente. Some com ela. Não posso nem olhar. - Pode deixar. E as mulheres se encarregaram de carnear o bicho. Não demorou nem meia hora e já estava esquartejado. O coro e as tripas seriam lançados para os cães. Mas a cabeça, teriam que esconder para que o marido não a visse. - Ele é cheio de partes. Diz que os bugios são quase gente. - Mas olha só. – A irmã com a cabeça do animal na mão. – Vê se não parece mesmo. É uma coisa preta, beiçuda e cabeluda. Enquanto uma ficou temperando com sal grosso a carne, a outra se encarregou de levar a cabeça para jogar fora . E foi lá para os fundos. “ - Os urubús dão conta dela.”. Salete e a prima tinham muito do que falar. Saíram das goiabeira e foram para dentro de casa. Iriam continuar com o assunto encerradas lá no quarto. No trânsito das goiabeiras para a casa passaram em frente ao galpão onde as mães delas carneavam o bicho, e ouviram o final da conversa das mães. A pequena Marla sempre na barra da saia da irmã Salete. - Não importa que ela ouça a conversa. Ela não entende nada mesmo. A pequena Marla também ouviu o final da conversa da mãe com a tia enquanto passavam pelo galpão Ficou com aquela imagem na memória: “-A cabeça do bugio é uma coisa preta, beiçuda e cabeluda”. Duas moçoilas se transformando. Eram da mesma idade. E estavam se medindo na segurança do quarto. Verificando as mudanças que a puberdade fazia com elas. Estavam ficando muito diferentes das outras que eram ainda meninotas. E a pequena Marla sempre atenta a tudo o que via e ouvia. Uma hora da tarde. O sol a pino não perdoa. Seu Anastácio dá um tirambaço no gargalo da azulzinha da boa com folhas de bergamota. Arrolha bem o garrafão e vem se acomodar na cabeceira da mesa. Dá uma boa olhada ao redor da mesa e reclama: - Cadê a Salete?. - Tô indo, Pai. – Gritou ela lá do quarto. - Todo mundo na mesa! Ta passando da hora. - Já vamos. As crianças vieram rápido. Barriguinhas ávidas por comer daquele assado. Fazia tempo que não tinham carne vermelha na mesa. Cada um tem o seu lugar marcado. Só faltavam a mais velha que estava de “tititití “ com a prima no quarto e a pequena Marla que não desgruda dela. - Como é? Vocês vem ou não vem? - Gritou novamente Anastácio em direção ao quarto. E na seqüência, dirigindo a palavra para a esposa e a cunhada, perguntou: - E a cabeça do bugio? Onde é que está? A pequena Marla ouviu esta última pergunta. Lembrou que era uma coisa preta, beiçuda e cabeluda e apressou-se a responder: - Ta aqui, paiê!...........Tá com a prima. Por Sérgio Marques Teixeira Contabilista e Analista de Sistemas
|