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Imagem AtivaNão faz muito, o Brasil era um país divido pelo debate entre idéias: economia aberta ou fechada; privatização ou estatização; democracia ou autoritarismo; socialismo ou capitalismo. Hoje, o debate ideológico no Brasil se limita a cotas e bolsas. Nos últimos anos, o Brasil sofreu um grande retrocesso ideológico: os intelectuais em silêncio reverente, os sindicados acomodados, os estudantes quietos, o pobre debate se dá entre cotas, bolsas e meia-entrada.

Parte da opinião pública é contra a distribuição de bolsas para pobres; parte considera que a distribuição de bolsas é um grande salto na luta pela justiça social. O mesmo acontece com as cotas. Parte é contra usá-las como instrumento para ajudar a quebrar o absurdo predomínio branco que caracteriza a elite brasileira; outra parte comemora as cotas como se fossem a solução para todos os problemas que pesam sobre os negros brasileiros.

Há uma razão que unifica os dois lados do nosso medíocre debate: o desprezo dos formadores de opinião quanto aos pobres e excluídos do Brasil. Tanto entre os que defendem quanto entre os que criticam bolsas e cotas.

Aqueles que hoje são contra as bolsas nunca defenderam, no passado, a revolução que teria feito as bolsas desnecessárias. E os que comemoram as bolsas como o grande mérito do governo atual contentam-se com elas, sem defender a revolução que permitirá abolir a necessidade delas.

No caso das cotas é ainda mais grave. Os que são contra nunca se sensibilizaram com a exclusão de negros em nossa elite. Os que são a favor lutam pela reserva de vagas na universidade, mas não para que todos terminem o ensino médio em escolas de qualidade. Procura-se a inclusão no topo da pirâmide social, mas não a subversão da pirâmide, dando-lhe uma geometria mais igualitária.

No Brasil, os dois grupos, a favor e contra, lutam para manter privilégios ou incorporar os privilegiados, não para eliminar os privilégios. A crítica correta às bolsas e cotas está na defesa da igualdade educacional: em vez de impedi-las, torná-las desnecessárias.

A seleção de futebol não precisa de cotas, porque a bola é redonda para todos; chegam lá os mais talentosos e persistentes. Só uma escola "redonda" para todos permitiria abolir a necessidade de cotas e de bolsas. Isso exige uma revolução na educação de base. Mas os defensores e opositores de bolsas e cotas desprezam o radicalismo da solução definitiva: a igualdade de oportunidades para abolir todos os privilégios.

Em um país com ânsia de justiça, bolsas e cotas são necessárias como paliativos, distribuindo pequenas ajudas aos pobres e pingando negros na universidade. Não devemos recusar esses instrumentos, mas tampouco comemorar a necessidade deles.

O Brasil é um país dividido, com uma sociedade partida. Bolsas e cotas são migalhas necessárias, jogadas de um lado para o outro do muro que nos divide, mas não levam à revolução que permitirá aos pobres e aos negros serem donos de seus destinos, viverem sem necessidade delas. O caminho para isso é a escola igual para todos, capaz de quebrar privilégios, eliminar necessidades, levando o Brasil a um salto civilizatório.

Diante da pobreza de idéias, presas à superficialidade e ao simplismo de bolsas e cotas, o debate hoje impossível. A prova é que um artigo como este será certamente recusado pelos que defendem e pelos que se opõem a cotas e bolsas. Acostumados a defender ou condenar migalhas e pingos, lutam para manter os privilégios, sem buscar soluções que permitam dispensar as bolsas e as cotas.

Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

 
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